A MASSA DE ‘IDIOTAS ÚTEIS’ QUE FEZ A PRIMEIRA GRANDE MANIFESTAÇÃO DO GOVERNO BOLSONARO

maio 16, 2019 No Comments »
A MASSA DE ‘IDIOTAS ÚTEIS’ QUE FEZ A PRIMEIRA GRANDE MANIFESTAÇÃO DO GOVERNO BOLSONARO
*Época

Crítica do presidente em Dallas é respondida por milhares nas ruas em protesto contra cortes na educação

Milhares de pessoas se reuniram na Avenida Paulista em defesa da educação. Foto: Amanda Perobelli / Reuters
Milhares de pessoas se reuniram na Avenida Paulista em defesa da educação. Foto: Amanda Perobelli / Reuters

Depois de 135 dias à frente do governo, Bolsonaro enfrentou a primeira greve, movimento que ganhou o apoio de professores e estudantes de instituições públicas e privadas de ensino infantil, fundamental, médio e universitário nos 26 estados do país e no Distrito Federal. Em São Paulo, os manifestantes se reuniram na Avenida Paulista, perto do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Em Brasília, o ponto de encontro foi a Esplanada dos Ministérios. No Rio de Janeiro, diversas vias no centro da cidade foram interditadas. Segundo informações do Centro de Operações da Prefeitura, os protestos aconteceram na Avenida Presidente Vargas, entre a Avenida Rio Branco e a Rua Primeiro de Março. Em Salvador, debaixo de chuva, professores e estudantes também se concentraram na parte central da cidade. Em Belo Horizonte, o local que reuniu mais gente foi a Praça da Estação.

Antes de chegar à Avenida Paulista para participar do protesto, Grazielly Alves Pereira, de 33 anos, professora de história da rede municipal de São Paulo, havia ouvido a declaração de Bolsonaro em Dallas. “Senti um misto de raiva, angústia e indignação”, disse. “Tenho por princípio, como professora pública, devolver para a escola o que me foi dado. Não somos idiotas, não somos incompetentes”, completou. Perto da professora estava Lourival Aguiar, de 32 anos, estudante de antropologia no curso de doutorado da Universidade de São Paulo (USP). Aguiar também estava revoltado com o uso da expressão “idiotas úteis”. “É bastante complicado quando um presidente se refere a parte de sua população dessa forma, independentemente de ter votado nele ou não. Somos cidadãos que querem ter sua voz ouvida, suas demandas entendidas. Não somos idiotas inúteis”, disse.

“O DEPOIMENTO DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO NO CONGRESSO ELEVOU A TEMPERATURA POLÍTICA E ESTIMULOU MAIS PESSOAS A SAIR DE CASA PARA PROTESTAR PELOS CORTES NO ORÇAMENTO DO MEC”

Enquanto professores e alunos se reuniam nas ruas, Abraham Weintraub, o ministro da Educação, era sabatinado por deputados na Câmara. Weintraub foi chamado para prestar esclarecimentos sobre a redução do Orçamento. O bloqueio total anunciado até o momento é de cerca de R$ 7 bilhões. Isso inclui o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que financiam a pesquisa no país.

No plenário da Câmara, o ministro e deputados oposicionistas não demoraram a se envolver em bate-bocas e trocas de acusação. Provocado pelo deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), que o acusou de “manobra contábil” na apresentação das justificativas para os cortes, Weintraub disse: “Quem caiu em função de manobra contábil foi a senhora Dilma Rousseff, que eu saiba”, em referência às pedaladas fiscais que acabaram justificando o impeachment da presidente. Foi o que bastou para a Câmara ganhar ares de sala de aula da quinta série.

A gestão do Ministério da Educação (MEC) tem sido marcada por polêmicas desde o começo do governo. O primeiro a ocupar o posto, Ricardo Vélez Rodríguez, chegou a Brasília com a bênção de Olavo de Carvalho, o ideólogo de Bolsonaro. Seus 98 dias no cargo foram marcados por divisões internas, demissões e recuos, como nos casos do pedido para que as escolas filmassem os alunos cantando o Hino Nacional e a decisão de adiar a avaliação da alfabetização. No começo de abril, Vélez disse que os livros didáticos de história passariam por uma revisão para que as crianças pudessem “ter a ideia verídica, real, do que foi sua história” e citou como exemplo o golpe de 1964, que classificou como constitucional, e a ditadura militar, que disse ter sido “um regime democrático de força”. A indicação de Weintraub, em vez de apaziguar os ânimos, manteve o MEC em temperatura de fervura.

Em Goiás, estudantes exibiram faixa improvisada caçoando de Bolsonaro. Foto: Reprodução
Em Goiás, estudantes exibiram faixa improvisada caçoando de Bolsonaro. Foto: Reprodução

Nos primeiros quatro meses e meio de governo Bolsonaro, o silêncio tem sido a marca da oposição. Mas ao ver o sucesso do movimento, Fernando Haddad, candidato presidencial do PT derrotado em outubro, não perdeu a chance de pegar uma carona. Foi recebido por simpatizantes na Avenida Paulista no final da tarde. “Temos hoje mais de 1 milhão de pessoas nas ruas pela educação no país, e o presidente Bolsonaro está no Texas, a pátria que ele escolheu servir”, disse Haddad de cima do carro de som contratado por sindicalistas. Uma das esperanças de parte da esquerda é que o movimento dos estudantes ganhe tração e vire uma versão dos coletes amarelos, manifestantes franceses que não têm dado sossego ao governo de Emmanuel Macron.

Os cortes na educação fazem parte do plano do governo de reduzir as despesas porque o Orçamento foi aprovado no ano passado tendo como base uma estimativa de crescimento econômico que está muito distante de se materializar. Diante disso, o governo não tem alternativa senão cortar gastos. Bolsonaro chegou a dizer isso em Dallas.“Na verdade não existe corte, o que houve é um problema que a gente pegou o Brasil destruído economicamente também, com baixa nas arrecadações, afetando a previsão de quem fez o Orçamento, e, se não tiver esse contingenciamento, simplesmente entro contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Então não tem jeito, tem de contingenciar”, declarou. A crítica de até quem reconhece a necessidade de fazer o ajuste é que o MEC tratou o tema como um castigo às universidades. Weintraub plantou um tom de briga e colheu gritos nas ruas que andavam silenciosas.

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